04/04/1993 – Bacalhau à moda Carijó (Entrerriense 2×1 Vasco da Gama)

zebras

Por Gustavo de Azevedo

04/04/1993 – Entrerriense 2×1 Vasco da Gama

No ano de 1993, a cidade de Três Rios, no Centro-Sul Fluminense, vivenciava o maior momento do futebol local. Os dois clubes profissionais da cidade, América-TR e Entrerriense, estavam ao lado dos principais clubes do estado do Rio de Janeiro, na Primeira Divisão do Campeonato Carioca daquele ano. O América-TR completava sua quarta participação no Estadual e de forma consecutiva desde o ano de 1990, enquanto o Entrerriense era o caçula da competição.

No entanto, quis o destino que no ano de realização do clássico trirriense na elite do futebol do Rio de Janeiro, as duas equipes caminhariam sobre brasas e colecionariam derrotas no certame. Coerentemente, o clássico local ficou num triste 0 a 0 pelos idos da 6ª rodada da Taça Guanabara. O rebaixamento do América-TR ficou praticamente selado logo após a 4ª rodada do turno, devido o time rubro sofrer uma punição que impunha a perda de 10 pontos pela escalação irregular do atleta Juarez. Assim, o América-TR passou a somar -9 pontos no certame, já que possuía apenas um ponto conquistado

Ricardo abrindo o placar no Odair Gama. (Foto: José Roberto Serra/Jornal do Brasil)
Anderson abrindo o placar no Odair Gama. (Foto: José Roberto Serra/Jornal do Brasil)

Pelo lado alvinegro da cidade, a coisa não era tão melhor não. Apesar de não ter dado motivos à perda de pontos fora das quatro linhas, dentro delas o Entrerriense os viam serem levados pelos adversários rodada pós rodada. Se olharmos os nove primeiros jogos do time na Taça Guanabara, o que era a maior parte do total, vemos que o Galo Carijó somava apenas três pontos ganhos, provenientes de três empates de zero, diante de Bangu, América-TR e Volta Redonda. Situação calamitosa que lhe dava a penúltima colocação do campeonato, dentro da zona de rebaixamento, junto ao América-TR, lanterna. A salva guarda era a pequena diferença de pontos para São Cristóvão (dois pontos) e Olaria (três pontos), ambos os últimos fora da zona de degola.

Mas o tempo era curto, pois faltavam apenas dois jogos para evitar que a carruagem do Galo Carijó virasse abóbora e assim a equipe voltasse à Segunda Divisão. Para impedir isso, na semana do jogo contra o Vasco da Gama, decisivo para ambos os lados, fez se necessária a troca do cargo de treinador, onde saiu Gilson Gênio e entrou Oton Valentim. Para a batalha de um pequeno na luta pela permanência contra um gigante que vislumbrava a Taça Guanabara e a sedimentação do bicampeonato estadual, era necessário um forte comprometimento. Nessa variante, o técnico Oton Valentim afastou cinco atletas na véspera do jogo decisivo, por estarem mais ligados nas farras da noite de Três Rios do que no jogo dominical.

Com cinco modificações com relação ao time que vinha jogando com Gilson Gênio, o Entrerriense entrou no gramado do estádio Odair Gama, disposto a fazer história: vencer pela primeira vez no Estadual e salvar a equipe do rebaixamento. As arquibancadas estavam lotadas, não havia mais espaço, o torcedor Carijó fazia seu último esforço para ajudar a tirar o Entrerriense dessa incômoda situação. A estratégia do Galo Carijó era partir para o ataque desde o início, marcar um gol e depois se fechar com solidez na defesa, buscando os contragolpes. A estratégia do time de Oton Valentim pegou o Vasco de surpresa, ainda atordoado com a perda de longa invencibilidade na derrota para o Americano na rodada anterior e perseguindo desesperadamente o Fluminense, líder da Taça Guanabara, o cruzmaltino era envolvido em campo.

Anderson cobte o resto, mas  não esconde alegria. O Entrerriense venceu o Vasco. (Foto: José Roberto Serra/Jornal do Brasil)
Anderson cobre o resto, mas não esconde alegria. O Entrerriense venceu o Vasco. (Foto: José Roberto Serra/Jornal do Brasil)

O Entrerriense dominava os setores e tinha como maestro o meio-campista Pintinho, que foi um dos que entraram às pressas no time. Pintinho esbanjava habilidade e técnica na partida, a qual não demorou muito e viu os donos da casas inaugurarem o marcador aos 12 minutos da etapa inicial. Após falha grotesca do zagueiro Jorge Luís, Anderson recebeu dentro da área e  chutou cruzado no canto direito de Carlos Germano,  fazendo Entrerriense 1 a 0. Era tudo que o time carijó necessitava. A partir daí, o Entrerriense começou a buscar contragolpes fulminantes e a observar o Vasco tropeçar em suas próprias pernas no campo do Odair Gama. Porém, se mais gols pelo lado anfitrião não saíram no primeiro tempo, credita-se a boa atuação do goleiro Carlos Germano e dá má pontaria da frente ofensiva trirriense.

No segundo tempo, a sinfonia era a mesma. Abusando das falhas defensivas e sem evolução do meio pro ataque, o Vasco seguia dominado pelo Entrerriense, que cansava de perder gols. Como quem não faz, leva – assim diz o ditado – aos 24 minutos, Bismarck recebeu bola em posição duvidosa e colocou no fundo das redes do arqueiro Nilson. 1 a 1. Era o injusto empate vascaíno, que gelava a espinha do torcedor carijó e o fazia lamentar os gols perdidos pelos atacantes do seu time. Ainda assim havia um resto de galhardia, que fez o time liderado em campo por Pintinho, buscar nos minutos finais a sua justiça. Aos 41 minutos,  também em posição duvidosa, Silas recebeu dentro da grande área e venceu o paredão Carlos Germano. Bola no fundo do gol. Entrerriense 2 a 1 e fim de papo. Explosão da torcida local, que carregou sobre os ombros os seus heróis locais, que aumentaram o martírio cruzmaltino naquela Taça Guanabara.

Na última rodada, nova vitória do time carijó, sendo que sobre o Americano em Campos pelo placar de 1 a 0. No entanto, o time não conseguiu evitar o descenso, já que São Cristóvão e Olaria pontuaram de tal modo, que deixaram em vão os esforços de Pintinho, Silas, Ricardo e Cia. Mas a grande vitória sobre o Vasco da Gama, que acabaria ao final de tudo sendo bicampeão estadual em 1993, fez com que a estreia do Entrerriense na Primeira Divisão valesse a pena e consolidando que o dia 04 de abril de 1993…

Era dia de zebra.

Dados da Partida:

ENTRERRIENSE 2×1 VASCO DA GAMA

Campeonato Carioca 1993, 10ª Rodada – Taça Guanabara;
Local: Estádio Odair Gama, Três Rios-RJ;
Data: Domingo, 04/04/1993;
Horário: 16 horas;

Árbitro: Carlos Elias Pimentel;

>>> Entrerriense: Nilton; Claudinei, Cadão, Paulo Ramos e Mazinho; Murilo, Zanon e Luciano (Junior); Anderson, Ricardo (Silas) e Pintinho. Técnico: Oton Valentim.

>>> Vasco da Gama: Carlos Germano; Pimentel (Leonardo), Jorge Luís, Tinho e Sidnei; Luisinho, Leandro, William e Dias (Jardel); Valdir e Bismarck. Técnico: Joel Santana.

Cartões Amarelos: ENT (Murilo e Luciano) – VAS (Tinho);
Cartões Vermelhos: VAS (Jorge Luis);

Gols: Anderson (1×0 – 12’2ºT), Bismarck (1×1 – 25’2ºT) e Silas (2×1 – 41’2ºT);

Renda e Públicos: não divulgados.

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