14/03/1999 – O frio desceu a Serra e congelou o Maracanã (Botafogo 0x1 Friburguense)

Por Gustavo de Azevedo

14/03/1999 – Botafogo 0x1 Friburguense

Esforço mental. Se fizermos uma analogia entre futebol e religião, podemos dizer que o Maracanã para os apaixonados por este esporte representaria o mesmo que Roma para os católicos? Meca para os mulçumanos? Jerusalém para os judeus? Muito provável que sim. Se grandes jogadores, grandes equipes e até personalidades sentem um misto de devoção e apreensão ao adentrarem os portões do “Maior do mundo”, então, o que dizer de uma modesta equipe da Região Serrana do Rio de Janeiro? Certamente, uma emoção indescritível. O ano de 1984 reservava a estréia do Friburguense na elite do futebol do Rio de Janeiro e no dia 04 de agosto daquele ano, mais precisamente numa tarde de sábado, o time serrano encararia essa emoção pela primeira vez. Infelizmente, o encanto da emoção deu lugar a decepção. A equipe serrana foi impiedosamente goleada pelo Fluminense de Romerito por 5 a 1. Só ficando a menção ao atacante Maciel, o primeiro a balançar as redes do estádio pelo Friburguense em toda a história. Em 1984 o Friburguense retornaria à Segunda Divisão do estado… Mas a história entre a equipe e o estádio Mário Filho não seria encerrada naquele dia.

Deley comemora um dos gols na implacável goleada sobre o Friburguense no Carioca 84. (Foto: Ari Gomes/Jornal do Brasil)
Deley comemora um dos gols na implacável goleada sobre o Friburguense no Carioca 84. (Foto: Ari Gomes/Jornal do Brasil)

Avançando 14 anos na linha do tempo da história chegamos ao ano de 1998. O Friburguense após aparecer na Primeira Divisão em 1984, 1988 e 1995, retornava à elite do futebol do estado do Rio de Janeiro. Em todos aqueles anos o time de Nova Friburgo não conseguiu permanecer para a próxima edição do Estadual da Primeira Divisão, logo retornando à Segunda Divisão. Mas 1998 tinha que ser diferente e um investimento alto foi feito. A equipe do Friburguense venceu a Seletiva do Estadual daquele ano, terminou o Campeonato Carioca na 6ª colocação e de quebra bateu o Botafogo por duas vezes (2 a 0 no Caio Martins e 4 a 2 no Eduardo Guinle). O Friburguense aparecia no cenário estadual, incomodava os grandes e mostrava que queria ser uma força do futebol do interior fluminense.

Se o objetivo é se firmar, nada melhor do que fazer bonito em 1999, para a inédita disputa do Campeonato Carioca pela segunda vez consecutiva. O time possuía remanescentes da campanha anterior, dentre os quais destaco o goleiro Adriano, o zagueiro Cadão, o volante André Gomes, o experiente meio-campo Eduardo e o atacante Nevada. Guardou esse nome? Ne-va-da. Apesar das 4 edições disputadas pelo Frisão no Campeonato Carioca, só no ano de 1984 que ele havia pisado no Maracanã. Nas edições seguintes, o clube pegou uma fase onde o Flamengo, Fluminense e Botafogo começaram à fugir do Maracanã em jogos menores. Nessa fase, palcos mais acanhados como Caio Martins, Marechal Hermes, Gávea, Laranjeiras, Ítalo del Cima e a Bariri foram utilizados pelos clubes tidos como ”grandes”.

Friburguense naquele domingo. Em pé: Cadão, Adriano,  Sergio Gomes, André Gomes, Max e Merica;  Agachados: Bill, Eduardo, Marquinhos, Amarildo e Reginaldo Pinguim. (Foto/Arquivo: Friburguense AC)
Friburguense naquele domingo. Em pé: Cadão, Adriano, Sergio Gomes, André Gomes, Max e Merica. Agachados: Bill, Eduardo, Marquinhos, Amarildo e Reginaldo Pinguim. (Foto/Arquivo: Friburguense AC)

No Campeonato Carioca de 1999, o Friburguense estreou bem ao bater o Madureira por 1 a 0 na rua Conselheiro Galvão. Após a boa estreia, o Friburguense partia para a 2ª rodada da Taça Guanabara. O Tricolor da Serra faria nova partida longe do Eduardo Guinle. Era o reencontro com o Maracanã, dessa vez o adversário não era nem Flamengo e Fluminense, times que o derrotaram no estádio em 1984. O adversário era o Botafogo, o mesmo alvinegro o qual o Friburguense quebrou a escrita de nunca ter vencido um grande, no ano anterior. O Botafogo de 1999 não era sombra do time dos anos 60, mas tinha jogadores de respeito no seu elenco como o goleiro Wágner, o lateral-esquerdo Cesar Prates, o volante Válber, os meias Sérgio Manoel e Rodrigo e o atacante tetracampeão mundial Bebeto. O Botafogo daquele ano teria como auge a final da Copa do Brasil diante do Juventude, o qual levou a taça após um empate em 0 a 0 no Maracanã. Aquele título do Juventude diante de mais de 100 mil pessoas no Maracanã foi sem dúvida uma grande zebra e… Espere!!! Não é sobre essa zebra que iremos falar.

Nosso foco é também num domingo, só que o do dia 14 de março de 1999. Como falava, era a 2ª rodada da Taça Guanabara. O Botafogo estreava o zagueiro Sandro, que após duros 5 anos à serviço do Alvinegro de General Severiano, viraria ídolo da torcida botafoguense. O Friburguense com seu modesto time vinha disposto a amarrar novamente os pés alvinegros e levar a vitória para Nova Friburgo. Aquela vitória que seria uma glória, histórica, a primeira no Maracanã. Surpreendentemente, o Friburguense se mostrava em campo uma equipe muito organizada e assim era melhor no jogo, mas não conseguia assustar muito o gol do goleiro Wágner. Enquanto isso, o Botafogo não se entendia em campo, mas pela superioridade técnica assustou o gol de Adriano em dois lances na primeira etapa: Logo nos primeiros minutos, Bebeto saiu livre cara a cara com Adriano, mas não concluiu em gol. Aos 15 minutos, Reidner arriscou de longe e Adriano voou na bola e colocou-a em escanteio.

Nevada comemora seu gol de braço erguido, cercado por Merica, Max e um atleta não-identificado. (Foto: Jornal O Globo)
Nevada comemora seu gol de braço erguido, cercado por Merica, Max e um atleta não-identificado. (Foto: Jornal O Globo)

Na segunda etapa o jogo seria marcado por duas expulsões. O árbitro Edilson Soares da Silva expulsou o estreante Sandro pelo lado alvinegro e o lateral-direito Sérgio Gomes pelo lado do tricolor serrano. Com mais espaço em campo, o Botafogo passou a ser mais afoito ao pote e quase abriu o marcador com Bebeto, que livre de marcação na pequena área, cabeceou para fora. O Friburguense, aproveitando os erros e os espaços dados pelo Botafogo na defesa, buscava os lances de contra-ataque. Insatisfeito com o seu ataque, Julio Marinho, comandante do Frisão, tirou Reginaldo Pinguim e Amarildo e pôs em campo Evandro e Nevada (lembra dele?). E esse Nevada, atendido nos documentos como Nerivaldo da Silva, nascido em 1971, natural de Palmares-PE e ex-atacante do Náutico no início dos anos 90, estava predestinado a protagonizar… Aos 39 minutos da segunda etapa, Nevada recebeu bola num vazio na ponta direita, invadiu a área e deu de cara com Válber (campeão brasileiro, da Libertadores e intercontinental), deslocado para o miolo de zaga após a expulsão de Sandro. Para Nevada, o currículo do seu oponente não importava, o atacante tricolor deu uma tímida gingada (foi cirúrgico) e antes que Paulo Cesar (o Baier) chegasse na sobra, bateu de curva, como se colocasse a bola com a mão de tão perfeito o arremate. O goleiro Wágner se esticou por completo, mas a bola morreu no canto esquerdo médio do gol botafoguense… Gol do Friburguense, gol de Nevada, que comemorou efusivamente, sabia que escrevia seu nome na história do mítico estádio e colocava o Friburguense no mapa do futebol do Rio de Janeiro.

Ainda nos acréscimos, o Botafogo tentou evitar a derrota, Caio de peixinho na pequena área colocou por cima do gol para o desespero botafoguense… Mas o destino selava que no dia 14 de março de 1999, o Botafogo era batido pelo Friburguense por 1 a 0…

Enfim, 14 de março de 1999 era dia de zebra.

Dados da Partida

BOTAFOGO 0x1 FRIBURGUENSE

Campeonato Carioca 1999
Taça Guanabara – 2ª Rodada
Data: 14/03/1999;
Local: Estádio Maracanã, Rio de Janeiro-RJ

>>> Botafogo: Wágner; Paulo Cesar, Sandro, Bandoch e César Prates (Ronildo); Reidner, Válber, Caio e Rodrigo (Leonardo); Bebeto e Zé Carlos (Pontes). Técnico: Valdir Espinoza.

>>> Friburguense: Adriano; Sérgio Gomes, Cadão, Max e Bill; André Gomes, Merica, Eduardo (Jefinho) e Marquinhos; Reginaldo Pinguim e Amarildo (Nevada). Técnico: Julio Marinho.

Gols: Nevada (0x1 – 39’ 2ºT);

Árbitro: Edilson Soares da Silva;
Auxiliares: Fábio Nardi de Barros e Carlos José das Neves;

Público: 21.967 presentes;

Um comentário em “14/03/1999 – O frio desceu a Serra e congelou o Maracanã (Botafogo 0x1 Friburguense)

  • 14 de janeiro de 2014 em 12:59
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    Arretado demais Gustavo Azevedo, depois de tanto tempo desde da primeira vez que esteve na primeira divisão o Friburguense finalmente venceu no Maracanã, excelente resgate e registro.

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