21/10/1973 – Uma vila pintada em azul e branco (Santos 1×2 Olaria)

culuna

Por Gustavo de Azevedo

Ano de 1973, o futebol brasileiro transcorria para a 3ª edição do seu campeonato nacional. Naquela época, o campeonato era genuinamente nacional, já que possuía representantes de todas as regiões e de uma gama variada de estados da federação. Nos anos 70, a classificação para o Campeonato Brasileiro era feita via campeonatos estaduais e pelo critério das maiores rendas dos citados. E o estado da Guanabara (atual cidade do Rio de Janeiro) tinha 6 vagas para a competição, onde uma delas foi preenchida de forma surpreendente pelo Olaria Atlético Clube.

Roberto Pinto em ação pelo Olaria naquele ano. (Arquivo: Milton Neves)
Roberto Pinto em ação pelo Olaria naquele ano. (Arquivo: Milton Neves)

O Olaria no Campeonato Carioca de 1973 fez uma parceria com as lojas do Ponto Frio, onde consumidores do estabelecimento ganhavam ingressos de cortesia para os jogos do clube naquele campeonato. Essa promoção alavancou o público na Rua Bariri, fazendo o Olaria figurar entre as seis maiores rendas do torneio e garantir vaga no Brasileirão. No Nacional, a equipe da rua Bariri não contou com o meia Afonsinho, que em outrora brilhara com a camisa do Botafogo, mas que rumou para a Gávea após belo Estadual pelas fileiras azul e brancas. Os destaques daquela equipe atendiam pelos nomes de Ubirajara (goleiro ex-Flamengo e Botafogo), Joel (o Santana), Roberto Pinto (meia veterano e sobrinho de Jair da Rosa Pinto) e Jair Pereira (ex-meia e famoso treinador).

O Olaria começou o campeonato de forma muito tímida, colecionando insucessos, tanto que a primeira vitória na competição só veio na 12ª rodada, com um 2 a 0 no Atlético-PR fora de casa. A partir da primeira vitória o ânimo e a confiança se renovaram nos ares da Bariri. A seguir da primeira vitória, empate com o Náutico sem balançar as redes no Recife-PE, e o confronto contra o forte time do Santos, campeão paulista vigente [dividido com a Portuguesa-SP] e recheado de craques como Carlos Alberto Torres, Edu, Clodoaldo, Cláudio Adão e um tal Pelé (ou Gasolina, como preferir). Ali naquele momento o Olaria somava humildes sete pontos na vice-lanterna da chave B e era o adversário ideal para um Santos que faria daquele embate o único na Vila Belmiro pelo Nacional.

Algumas baixas do lado santista pesavam a favor do time da Bariri: C. A. Torres, Edu e Pelé, tendo o último sofrido incômodo muscular na volta do empate com o Goiás, em Goiânia. Na cabeça de Pepe, comandante do alvinegro praiano, “poupemos o ‘Rei’, pois não fará falta alguma diante do humilde Olaria”. Entrando nas vísceras do jogo, concordemos sumariamente com Pepe. Logo com 6 minutos de peleja, Léo arriscou de fora da área pro gol, a bola carimbou num beque do time carioca e sobrou para Cláudio Adão, um garoto na época – 18 anos, dominar no peito com categoria e empurrar pro fundo da meta do arqueiro Ubirajara. Na primeira etapa, o Olaria se apresentou como o time das 11 primeiras rodadas, com cara de paisagem e condolente ao domínio anfitrião, que só não fez mais gols pela incapacidade do quarteto ofensivo naquela tarde de domingo.

Detalhe da surpreendente vitoria olariense na Vila. (Foto: Jornal do Brasil - 22.10.1973)
Detalhe da surpreendente vitoria olariense na Vila. (Foto: Jornal do Brasil – 22.10.1973)

No segundo ato de espetáculo o Olaria voltou diferente, talvez por mão do técnico Paulinho de Almeida ou não. Mas segundo o relato do próprio comandante do Olá, o caminho era se fechar, aproveitar os espaços e armar rápidos contragolpes para fazer o improvável. E o inesperado, regido por Roberto Pinto (relatos dizem que o meia “comeu a bola” nesse jogo) começou a ser pintado nas cores azul e branca aos 11 minutos, quando o centroavante Jair recebeu de fora da área e chutou com sucesso para escrever o empate. 1 a 1. E assim o campeão paulista alardeava-se em desespero, pois, pelo visto, deixou o bom futebol nos vestiários. O golpe de mestre do Olaria se daria aos 40 minutos com Jair Pereira, que entrara no lugar de Jair, autor do gol de empate. Após falha generalizada do corpo de defesa santista, Jair Pereira marcou de bicicleta e decretou o improvável: Olaria 2 a 1 sobre o Santos de Pelé, sem Pelé.

Essa façanha do escrete olariense era o que faltava para a equipe crescer de produção naquele Campeonato Brasileiro. O Olaria ainda venceria mais cinco jogos no certame, sendo duas contra Vasco e Fluminense, elevando a equipe ao final do campeonato à 31ª posição, totalizando 24 pontos ganhos em 28 jogos na sua única participação na elite do futebol brasileiro.

Enfim, 21 de outubro de 1973 foi um dia de zebra.

Dados da partida:

SANTOS 1×2 OLARIA

Campeonato Brasileiro 1973
Primeira Fase – Grupo B – 14ª rodada
Data: 21/10/1973;
Local: Estádio Urbano Caldeira (Vila Belmiro), Santos-SP;

>>> Santos: Cejas; Hermes, Vicente, Roberto e Zé Carlos; Clodoaldo e Léo (Brecha); Jair da Costa (Nene), Eusébio, Cláudio Adão e Mazinho.

>>> Olaria: Ubirajara; Mauro Cruz, Joel, Da Costa e Gilberto; Silva e Adnan; Antoninho, Jair (Jair Pereira), Roberto Pinto e Ézio (Tanesi).

Gols: Cláudio Adão (1×0 – 6′ 1ºT), Jair (1×1 – 11′ 2ºT) e Jair Pereira (2×1 – 40′ 2ºT).

Árbitro: Eraldo Palmerini;
Assistentes: Antônio Fonseca Ribeiro e Antonio Carlos Gomes;

Renda e Público: Cr$ 47.876,00/5.940 pagantes;

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