31/03/2002 – Um peru não morre na páscoa (Botafogo 0x1 America)

culuna

Por Gustavo de Azevedo

31/03/2002 – Botafogo 0x1 America

Maracanã, acréscimos da partida entre Botafogo e America, o placar aponta 0 a 0 e nada diz que isso poder ser mudado. Bem, isso até que Ratinho segura bola na intermediária, percebe Róbson subindo com toda velocidade pela direita e faz o passe. Róbson domina a bola e antes de ir à linha de fundo, olha para a área e faz um cruzamento que encontra Gil Bala e… Melhor contarmos essa história de forma mais calma e pausada, antevendo os capítulos que eclodiram no inesperado revés rubro sobre o alvinegro.

O domingo, 31 de março de 2002, não era um domingo qualquer. Era domingo de Páscoa e se na tradição cristã o Messias passou pelo calvário, foi crucificado e dois dias depois ressuscitou, o America se inspirava na história bíblica buscando sua ressurreição. Só que o calvário rubro não durou apenas uma sexta-feira, durava mais de dois meses. Naquele ano de 2002, o Torneio Rio-São Paulo tomava o espaço do Campeonato Carioca, sendo mais longo que em anos passados e incluindo equipes menores do futebol carioca como America, Bangu e Americano. Mas o America não se mostrava preparado em voltar a enfrentar as potências do futebol paulista e carioca. O America até aquele dia pagava o maior vexame de sua gloriosa história até então. Até aquele dia foram 12 jogos disputados pelos rubros no Torneio Rio-São Paulo com 11 derrotas e apenas um empate, somando um ponto na lanterna geral da competição. A equipe rubra ainda havia sofrido 40 gols [cinco vezes menos que a melhor defesa – Corinthians], marcado apenas 9 tentos [Dodô do Botafogo, artilheiro até aquele momento, possuía seis a mais que todo o time americano] e assim ficando com um déficit de 31 gols de saldo. Era a ”baba” do certame, sem dúvidas. Estando, obviamente, muito aquém das tradições do America.

O técnico Renê Weber, junto do zagueiro Leonardo e de outros americanos cercam de forma efusiva o iluminado Gil Bala. (Foto: Jorge Bispo/Jornal do Brasil)
O técnico Renê Weber, junto do zagueiro Leonardo e de outros americanos cercam de forma efusiva o iluminado Gil Bala.
(Foto: Jorge Bispo/Jornal do Brasil)

Já o alvinegro esperava deixar de lado uma suposta “ressurreição” rubra e dar espaço a outra tradição daquele feriado, o chocolate. Aquele era um jogo chave na briga para chegar às semifinais da competição e, em tese, teria o adversário perfeito,  que poderia proporcionar uma goleada e elevar a moral da equipe que vinha de derrota na Copa do Brasil, sendo um 3 a 1 frente a equipe que o eliminaria nas Oitavas de Final deste outro certame, o Paraná Clube. Vale ressaltar que o Botafogo havia começado sua campanha entre os primeiros colocados e estado até na liderança do Rio-São Paulo, porém, a sequência de cinco jogos sem o sabor da vitória tirou o Glorioso da zona de classificados à fase semifinal. Então, não se pensava em perder mais pontos na competição, ainda mais para a equipe tida como “baba”, “bônus”, o peru a ter o pescoço torcido e levado à assar no forno do rebaixamento ao final do torneio.

O domingo de feriado se traduziu em domingo de casa vazia. Apenas 4.796 torcedores ainda acreditavam em superação alvinegra ou no ressurgimento rubro. Talvez preferissem seguir a tradição religiosa e degustar um bom bacalhau do porto do que ver um peru ser assado no gramado do Maracanã. Começado o jogo, era visível a posição de superioridade do Botafogo. Não que houvesse extrema capacidade do Botafogo, mas o time alvinegro liderado por nomes como Dodô e Léo Inácio, não tinha resistência do time rubro, que se propunha apenas a marcar próximo a sua grande área. A sorte do America era que aquele time do Botafogo não era nem de longe um grande esquadrão alvinegro (é só lembrar o que o Botafogo amargou ao final do Brasileirão de 2002, um rebaixamento) e dessa forma abusou de passes errados, cruzamentos facilmente detidos pela defensiva do America e nenhum arremate que oferecesse perigo à meta do goleiro rubro, Max. Nesse ritmo, a primeira etapa entre uma equipe que só se defendia e outra que só atacava, onde ambas faziam suas tarefas de forma espúria, só poderia terminar num desanimador 0 a 0. O mais justo seria um resultado negativo, que é impossível, infelizmente.

Gil Bala, camisa 9, pôs fim ao jejum de vitórias do America no Rio-São Paulo de 2002. (Foto: Reprodução)
Gil Bala, camisa 9, pôs fim ao jejum de vitórias do America no Rio-São Paulo de 2002. (Foto: Reprodução)

No segundo tempo, Abel Braga, comandante alvinegro naquele Rio-São Paulo, que havia chamado o time de “amarelão” no intervalo do jogo, tratou de mudar os dois laterais: saíam Carlos Alberto e Rodrigo Fernandes, entrando Geraldo e Leandro Eugênio. O alvinegro ficou mais agressivo, criou mais oportunidades e parecia questão de tempo o gol da vitória, que estenderia o calvário do America. As duas melhores chances de o Botafogo sair com a vitória aconteceram por intermédio do atacante Dodô. Aos 8 minutos, Dodô recebeu na entrada da área e chutou no canto esquerdo de Max, que voou para espalmar em escanteio. Aos 22, o lateral-esquerdo Geraldo explodiu um chute no goleiro Max, que espalmou a bola e no rebote, com o goleiro rubro caído, Dodô conseguiu jogar por cima da meta para desespero da torcida botafoguense. Assistindo ao desfile de gols perdidos do time do Botafogo, o estreante Renê Weber e quarto treinador do America em três meses, deve ter se lembrado da velha máxima que persegue o alvinegro: “existem coisas que só acontecem ao Botafogo”. E num sopro de esperança tratou de pôr Ratinho no lugar de Fágner no meio-campo, com intenção de vitória.

Um triste retrato do desacreditado America de 2002 era a gloriosa camisa 10 rubra, em outrora vestida por craques como Edu Coimbra, estar relegada a um possível chamado do técnico para entrar em campo ao longo do jogo se fosse necessário. Mas quis o destino que ela entraria nos gramados do Mário Filho naquela tarde sendo envergada pelo tal Ratinho. E muito mais que isso. A mística da camisa pareceu influenciar o jogador americano, que num lance de técnica e inteligência, lembrando o ídolo rubro Edu, lá pelos 47 minutos do segundo tempo, começou o lance capital que inicia esse texto. O meia-atacante Ratinho, que segurava a bola na intermediária do Botafogo, percebeu o avanço rápido do lateral-direito Robson nas costas do marcador alvinegro e fez um belo passe em profundidade. Róbson ganhou na velocidade da marcação, mas preferiu não chegar à linha final e cruzou para Gil Bala na área. O centroavante rubro que estava entre a pequena área e a marca do pênalty,  aproveitou o mole do zagueiro Fabiano, completando o chute no meio do gol. O goleiro Kleber não segurou e espalmou a bola, que bateu na trave esquerda e entrou de mansinho para dentro do gol, sem balançar o barbante. America 1 a 0. Gol de Gil Bala. E o peso de 11 derrotas em 12 jogos desmoronava, fazendo com que aquela noite de domingo que estava por vir fosse a primeira de bom sono para os atletas rubros em muito tempo. Já o torcedor do America, enfim sorria naquele ano pelo Rio-São Paulo e a esperança de salvar-se do rebaixamento já o deslumbrava. Quanto ao Botafogo que esperava papar o “peru” do certame, acabou engolindo o tiro nada certeiro de Gil Bala, mas suficiente…

Enfim, 31 de março de 2002, era dia de zebra…

Dados da Partida

BOTAFOGO 0x1 AMERICA

Torneio Rio São Paulo 2002, 13ª rodada – Primeira Fase;
Local: Estádio Maracanã, Rio de Janeiro-RJ;
Data: Domingo, 31 de março de 2002;
Horário: 17 horas;

Árbitro: Wagner Tardelli;
Assitentes: Hilton Moutinho e José Orlando Gomes;

>>> Botafogo: Kleber; Romeu, Fabiano e Váldson; Rodrigo Fernandes (Geraldo), Carlos Alberto (Leandro Eugênio), Almir, Alexandre e Leonardo Inácio; Felipe (Taílson) e Dodô. Técnico: Abel Braga.

>>> America: Max; Róbson, Tinho, Leonardo e Piá; Nelson, Luciano Netter, Fábio Luís e Fagner (Ratinho); Leandro (Roberto Brito) e Gil Bala. Técnico: Renê Weber.

Cartões Amarelos: BOT (Fabiano, Carlos Alberto e Valdson) – AME (Róbson, Nelson, Luciano Netter, Fábio Luis e Roberto Brito);
Gol: Gil Bala (0x1 – 47’2ºT);

Renda e Público: R$ 35.251,50 / 4.796 presentes;

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