Dificuldades, paixões e sonhos: a vida dos clubes de menor investimento

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Por Emerson Pereira e Jairo Junior

A realidade de um clube com menos investimentos no Rio de Janeiro é árdua, principalmente aos que já tiveram seus momentos de glórias, como Bangu e Nova Cidade. Em meio às dificuldades, dirigentes apostam numa receita que deu certo no passado: os jovens de suas regiões.

IDENTIFICAÇÃO. Jorge Varela destaca os pontos para comandar um time pequeno (Foto: Emerson Pereira)
IDENTIFICAÇÃO. Jorge Varela destaca os pontos para comandar um clube (Foto: Emerson Pereira)

As coincidências entre os clubes vão além do vermelho e branco de seus uniformes. Enquanto o Alvirrubro da Zona Oeste viu o título da Série A do Campeonato Brasileiro “escapar” numa cobrança de pênalti, os nilopolitanos foram da elite fluminense ao limbo: o afastamento das competições oficiais.

Jorge Varela é advogado por formação, mas também tem outra função: preside o Bangu Atlético Clube. Ele contou como é administrar uma instituição sem grandes recursos.

– Identificação e ligação são os principais pontos para gerir um clube de menor investimento. Partindo destes princípios, temos que contar com alguns colaboradores para poder desenvolver os projetos. A dificuldade, no início, é pagar o que é devido pelos gestores anteriores. Quando se faz o levantamento, a gente acaba vendo que os valores são bem altos –  revela o mandatário.

A vida financeira banguense não é nada boa, porém não se compara com a do Esporte Clube Nova Cidade. O clube de Nilópolis está na última divisão do Campeonato Carioca, com pouquíssimos sócios e patrimônio deteriorado. Porém, a esperança se renova a cada amanhecer no Estádio Joaquim de Almeida Flores.

FAZ TUDO. Ex-goleiro, Jailton Caravala é vice-presidente e técnico do Nova Cidade (Foto: Emerson Pereira)
FAZ TUDO. Ex-goleiro, Jailton Caravela é vice-presidente e técnico do Nova Cidade (Foto: Emerson Pereira)

– Matamos um leão por dia, sem dúvida alguma. O Nova Cidade esteve num estágio de ‘quase morte’, mas seguimos na luta para manter este velho e tradicional senhor de 76 anos na ativa – brinca Jailton Caravela, vice de futebol e técnico, que completa:

– A falta de dinheiro nos faz acumular funções. Sinceramente, estou bem cansado. Mas vamos tocando o barco, porque trabalhamos com o sonho de jovens e devemos honrar, acima de tudo, a camisa do Nova Cidade – destaca o ex-goleiro, formado nas categorias de base do Vasco da Gama no final da década de 1980.

A volta das conquistas: o sonho dos torcedores

“O senhor é meu Castor”. O título da Revista Bangu Atlético Clube, de 1980, destaca a importância de uma pessoa que nunca foi presidente, mas que jamais será esquecido na Zona Oeste: Castor de Andrade. O bicheiro, falecido em 1997, foi o principal responsável pelas montagens dos grandes times do Alvirrubro. As lembranças do ícone banguense estão por todas as partes no Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho – homenagem a outro grande torcedor – , seja no busto na sala da presidência ou na parede do bar do popular Seu Zé, onde está escrito a seguinte frase: “Culpados são os que se escondem e não aparecem na hora precisa”. O próprio Zé quem conta:

'O HOMEM'. Seu Zé exibe o presente dado pelo saudoso Castor de Andrade (Foto: Emerson Pereira)
‘O HOMEM’. Seu Zé exibe o presente dado pelo saudoso Castor de Andrade (Foto: Emerson Pereira)

– O Castor era demais. Quando ele queria um jogador, brigava com qualquer time grande. Era igual a leilão, até chegar uma hora que não conseguiam cobrir a proposta do Bangu. Ele quando via alguém triste, perguntava o que estava acontecendo. Caso fosse falta de dinheiro, abria a mala e ajudava todo mundo. O homem era fora de sério – relembra Seu Zé, responsável por levar aos jogos o símbolo de grande devoção dos atletas: a imagem de Nossa Senhora Aparecida, com mais de 30 anos de clube.

Todos os dias em Moça Bonita, Seu Zé chega cedo, prepara o seu tradicional café e observa os alunos da escolinha. Como não poderia ser diferente, sua grande vontade é ver novamente o clube carioca como nos áureos tempos.

– O meu grande sonho é ver o Bangu voltar à elite do futebol brasileiro. Tem muito tempo que não estamos lá… É uma esperança que não morre. Vamos torcer e pedir a Deus que dê tudo certo – disse.

Em sua trajetória, Seu Zé viu o Bangu chegar numa final de Campeonato Brasileiro, em 1985, e disputar a Taça Libertadores da América na temporada seguinte. Porém, também viveu a queda para a Segunda Divisão do Campeonato Carioca, em 2004, e o desaparecimento das competições nacionais, de onde está afastado há 13 anos.

LEMBRANÇAS Jorge Luiz observa o treino do time profissional no local da antiga arquibancada (Foto: Emerson Pereira)
LEMBRANÇAS. Jorge Luiz observa o treino do time profissional no local da antiga arquibancada (Foto: Emerson Pereira)

No município de Nilópolis, Jorge Luiz tem uma rotina parecida com a do banguense Zé. Porém, tem funções diferentes: é diretor de patrimônio do Nova Cidade e técnico da equipe Sub-17. Além disso, o torcedor rubro apara o desgastado gramado do Joaquinzão, ajuda como pedreiro e limpa os quatro cantos do clube.

– Estou aqui para ajudar. As dificuldades são grandes, pois o clube foi do céu ao inferno num curto espaço de tempo. A falta de crédito no mercado foi o primeiro percalço que encontramos, contudo estamos resgatando-o aos poucos. As pessoas da região podem ter raiva de alguns ex-presidentes, mas reconhecem a importância do Nova Cidade – salienta Jorge.

O clube que tem como mascote o Quero-Quero – ave tradicional dos campos de futebol – esteve na Série A do Campeonato Carioca nos anos de 1989 e 1990. No saudosismo, Jorge Luiz cuida com carinho das fotografias deixadas por Flávio Corrêa, ilustre torcedor falecido há três meses e que morava na atual secretaria que lhe homenageia.

– Quem imaginaria um time que foi tão ruim no primeiro turno conseguisse ser campeão e ir à Primeira Divisão? Somente nós, fiéis torcedores do Nova Cidade. Dá tristeza olhar para este campo e ver a que ponto chegou. Dias de jogos eram uma festa, um feriado na região. Vamos dando um passo por vez e um dia voltaremos – aposta esperançoso.

Jovens de comunidades buscam mudanças de vida

A vida de um jovem morador de comunidade é árdua. Viver com a omissão dos governantes e a “vida fácil” do crime são alguns dos percalços. Porém, não para Romário Azeredo e Rafael Malta, atletas de Bangu e Nova Cidade, respectivamente. Ambos com 20 anos, moram a poucos minutos de seus clubes e sonham com um futuro melhor.
Rafael Malta é nascido e vive na Vila União, em São João de Meriti, Baixada Fluminense. Meia do Quero-Quero de Nilópolis, ele sentiu na pele como é perder um familiar de apenas 16 anos. Traficante, seu primo foi morto numa operação policial na localidade conhecida como Final Feliz, no Morro do Chapadão, em 15 de fevereiro de 2013.

OLHA PARA O FUTURO. Rafael Malta espera ajudar seus familiares com sua carreira no futebol (Foto: Emerson Pereira)
OLHA PARA O FUTURO. Rafael Malta espera ajudar seus familiares com sua carreira no futebol (Foto: Emerson Pereira)

– Os jovens entram (no tráfico) porque acham maneiro andar armados, acham que tem o poder. Pensam que é uma fonte para conseguir dinheiro fácil, mas esquecem que estão colocando suas vidas em risco- relata o atleta, que destacou a importância do futebol em sua vida:

– O esporte é muito importante na minha vida. Quando estou treinando e competindo, saio das ruas e tenho algo para me dedicar. Muitos meninos encontram um caminho ruim pela falta de oportunidades. Tenho uma boa orientação e não vou destoar do meu rumo – garante.

Inspirado no veterano Zé Roberto, hoje no Palmeiras-SP, Malta tem em sua família a grande força de vontade para seguir no futebol.

– A vontade de vencer me motiva a cada dia. Muitos falam que não vou conseguir chegar no meu objetivo, mas quero mostrar que posso e tenho qualidades para isso. Quero ajudar a minha família a ter uma vida melhor, um futuro melhor. Amo jogar futebol, amo o que faço – ressalta o meia do Nova Cidade.

Na Vila Aliança, na Zona Oeste, mora o goleiro Romário. Assim como Malta, o camisa 1 do Bangu viu amigos entrar num beco sem saída: a vida do crime. Ele acredita que o esporte é uma saída para combater o tráfico.

– Com certeza o esporte é uma peça chave contra o crime. Os jovens estariam sendo tirados da rua e seriam colocados nos campos. Estariam ocupando seu tempo – descreve.

ESPERANÇA. Romário
ESPERANÇA. Romário segue o batente no Banguzão, num sonho real: o futebol (Foto: Emerson Pereira)

Na disputa do Campeonato Carioca Sub-20, o Banguzão vem realizando boa campanha. O camisa 1 almeja a conquista da competição da categoria, para quebrar o jejum de 29 anos sem a taça. Ele admitiu que já abandonou o futebol, mas voltou atrás e segue firme na diária jornada de treinos e jogos.

– Dei uma desanimada, principalmente nas transição dos juniores para o profissional. Creio que seja a parte mais difícil na carreira de um atleta. Surgem algumas incertezas.Já cheguei a parar por um período, mas não penso mais nisso e vou seguir nesta luta. Acreditar no meu sonho me motiva – declara o arqueiro.

As histórias de Rafael Malta e Romário Azeredo provam que o futebol vai além de uma partida de 90 minutos. O esporte tem, acima de tudo, o poder de transformar vidas e colocá-las num novo caminho. Entre os times ditos “grandes” e “pequenos” existe um abismo separando-os, mas Nova Cidade e Bangu mostram que um clube tem compromisso além do desportivo: o compromisso com o social.