Glauco Gomes, o torcedor que se tornou médico do Bangu

Por Super Gol (Fotos: João Carlos Gomes/BAC)

Quando o médico Glauco Gomes recebeu das mãos do ex-atacante Ado seu uniforme da comissão técnica, não conseguiu conter a emoção. Uma camisa e um short nunca tiveram um peso tão grande. Aquele momento representava a realização de um sonho.

– Receber o uniforme de médico do Bangu, pelo Ado, é como receber uma coroa, é como ter um filho, conquistar a mulher amada. É algo muito especial – diz Glauco. Então o homem de 44 anos, casado, pai de Rafaela (8) e Rafael (1), duas vezes graduado, chegou aonde queria.

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Glauco Gomes se formou em medicina em 2014, na Universidade Gama Filho, se especializou em medicina esportiva e chegou ao Bangu em 2015 para ser o médico da equipe Sub-20. Foi convidado para trabalhar em um jogo do profissional, entre Bangu e Cabofriense, na última temporada, pelo também médico Alexandre Gil.

– Eu fiquei muito nervoso, porque era a primeira vez que eu havia entrado no vestiário do Bangu. Achei que a minha vida fosse acabar de emoção. Foi uma experiência muito incrível – conta.

Enfim, nesta Copa Rio foi efetivado ao elenco profissional, mas ele já tinha tudo planejado para chegar ao seu objetivo.

– Fiz esta especialização já na ideia de ser o médico do Bangu. Muita gente ria na faculdade, tinha quem perguntava se Bangu ainda existia. Eu chegava e falava que não ia ser meu amigo se falasse mal do Bangu, então eu contava a história do clube, nossas conquistas, pioneirismo, enfim.

Uma vida marcada pelo Bangu

A infância do médico banguense foi próxima ao clube, já que ele era vizinho do Estádio Moça Bonita. Brincava na rua de jogar futebol e todos sabiam em qual time ele se inspirava. Já tinha personalidade forte e em meio à família de torcedores do Vasco da Gama, surgiu o único banguense. Aos 13 anos, viveu sua maior e mais marcante experiência como torcedor: a final do Campeonato Brasileiro de 1985 entre Bangu e Coritiba, no Maracanã.

– Se tivesse uma coisa que eu pudesse mudar na minha vida, eu daria qualquer coisa para mudar a final de 1985. Eu estava no Maracanã, fiz minha bandeira e fui de carro com meus tios. Se o gol do Marinho não fosse anulado, esse título seria nosso e nem iríamos para os pênaltis – relembra, sem guardar qualquer mágoa por Ado (foto) ter perdido o pênalti que deu o título ao rival:

– Um cara que eu idolatro é o Ado. Ele não teve culpa nenhuma naquele jogo, toda a torcida do Bangu tem que absolvê-lo porque ele é um guerreiro. Além do Marinho, Ado foi um grande jogador também para mim – destaca.

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Após passar parte da vida lecionando biologia e em seguida, sendo diretor de uma escola estadual do Rio de Janeiro, a realização do sonho de ser médico serve tanto de inspiração para os amigos a sua volta, quanto para sua família.

– Com 16 para 17 anos eu passei para medicina e fiquei reprovado no 3º ano, em outra tentativa prestei vestibular e não consegui passar. Isso me acompanhou pela vida e sei que Deus reservou para mim uma chance. No dia em que a minha filha nasceu, eu cheguei para o nosso obstetra e falei que iria ser médico. Ele achou que eu era louco por sair da área de educação e ir para a saúde, mas eu tinha que fazer para um dia dizer para a minha filha que eu não queria ser, mas que eu fui – conta.

Realizado profissionalmente, agora Glauco busca ajudar o Bangu a se recolocar onde jamais deveria ter saído, e faz um apelo.

– Peço às pessoas para acreditarem no Bangu, falar da nossa história. Que nossos amigos banguenses de fé vejam as dificuldades administrativas que os clubes de menor investimento têm. Sabemos que o Bangu de hoje não é o de 1985 ou 1987, mas está vivo. Eu estou aqui porque acredito na proposta. Aquele Bangu de antes a gente não volta a ser mais, pelo contrário, seremos melhores – afirma, esperançoso.