Há 20 anos, Voltaço batia o Fluminense e conquistava sua primeira Copa Rio

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Por Gustavo de Azevedo

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DEU o Volta Redonda do goleiro Sandro, que na foto tenta interceptar o avanço de Eduardo (E) e Wallace (D) do Fluminense. (Foto: Jonas Cunha / Jornal do Brasil)

Certamente, o momento mais marcante da história do Volta Redonda Futebol Clube foi o ano de 2005, quando a equipe da região Sul Fluminense conquistou a Taça Guanabara sobre o Americano e bateu na trave do título estadual ao ser vice-campeã para o Fluminense. Mas 11 anos antes desse grandioso feito, uma outra geração de aço encantava os torcedores do Volta Redonda e frente o mesmo Fluminense, levantava o caneco da Copa Rio de 1994, fazendo com que pela primeira vez na história uma equipe do interior do estado batesse um time grande da capital em uma final de campeonato.

O que foi a Copa Rio de 1994?

A Copa Rio foi criada em 1991 pela Federação Futebol do Rio para definir o segundo representante do estado na recém criada Copa do Brasil, que já tinha assegurada a participação do campeão estadual de cada ano. A edição de 1994 da Copa Rio ocorreu dentro da fase de maior glamour do torneio (1991-1995), quando Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo participavam da competição e o campeão tinha o direito de pleitear vaga à copa nacional. A competição, ainda, era composta por um filão de equipes da Primeira e da Segunda Divisão do Campeonato Carioca.

Naquele edição de 1994, assim como no ano anterior, a competição foi disputada no segundo semestre, diferente dos dois primeiros anos da competição. Semelhante a todas as suas edições até ali, era a disposição das 22 equipes participantes: as equipes da cidade do Rio de Janeiro formavam duas chaves pertencentes ao Grupo da Capital, enquanto o restante integrava outras duas chaves no Grupo do Interior. As duas melhores equipes das chaves da capital se classificavam para enfrentar as equipes consideradas grandes, pois estas entravam direto na 2ª Fase do Grupo da Capital – uma fase de quartas de final camuflada. Pelo lado do interior, regras parecidas. Os melhores de cada chave avançavam à segunda fase onde encontrariam os finalistas da edição anterior do Grupo do Interior, realizando assim na prática uma semifinal. E por final teríamos os finalistas, congratulando o vencedor de cada grupo.

Após conhecer os campeões da Capital e do Interior, os finalistas de cada grupo se encontrariam na fase de semifinal do certame, onde seriam decididos os finalistas do certame e na grande decisão teríamos o grande campeão da Copa Rio, que seria o felizardo qualificado à disputar a Copa do Brasil do ano de 1995.

Competição desprestigiada por clubes grandes e pela mídia

Assim como o futebol do Rio de Janeiro na década de 90, a Copa Rio passou longe de ser um campeonato organizado e razoável. Ainda na primeira fase do certame, alguns jogos previstos na tabela da competição simplesmente não aconteceram, caso do Itaperuna que não enfrentou Friburguense e Olympico como determinava a tabela. Além disso, o mesmo Olympico e o Serrano tiveram cinco pontos deduzidos de suas campanhas devido a escalação de jogadores de forma irregular.

Nas fase de mata-mata, a federação impôs a curiosa regra de que os critérios de desempate se dariam pelas quantidades de pontos conquistados no total do confronto, ou seja, se na ida uma equipe goleasse outra a na volta perdesse pela contagem mínima, o jogo seria forçado à um desempate. Esse desempate se dava por uma prorrogação e se nela ocorresse empate os jogos iriam para a disputa de pênaltis. Muitas classificações foram decididas deste modo.

Para coroar o sucesso do torneio, na segunda fase do Grupo da Capital, America e Vasco se enfrentaram por uma vaga na semifinal. No primeiro jogo, o Vasco da Gama ficou no empate de 2 a 2 com o time rubro, no entanto, por se recusar a jogar a partida da volta, que aconteceria em Caio Martins, o time de São Januário foi excluído do certame e o America automaticamente classificado à fase seguinte. Ainda por cima, a competição teve pouco apelo da mídia e do público, pois aconteceu em paralelo ao Campeonato Brasileiro, o que obrigava os clubes grandes a entrarem com reservas e juvenis ao longo do certame. Não foram raras às vezes que os jogos ocorreram em dias de jogos pela elite do futebol nacional, deflagrando críticas da imprensa à organização do torneio pela federação.

A campanha do Volta Redonda até a final

A caminhada do time da Cidade do Aço se deu em seu início na Chave 1 do Grupo do Interior ao lado de Serrano, Bayer, Mesquita e Barra Mansa. Apesar dos tropeços caseiros para Serrano e Barra Mansa, o Voltaço conseguiu garantir a liderança da chave, porém não garantiu a classificação logo de imediato. Isto, porque o Barra Mansa somou o mesmo número pontos do Volta Redonda, dividindo a ponta do grupo e assim forçando um jogo desempate pela vaga na Segunda Fase. Neste jogo, ocorrido em campo neutro, na cidade de Três Rios, no estádio Odair Gama, o Volta Redonda bateu o time da cidade vizinha por 4 a 1 e garantiu sua classificação.

Primeira Fase – Grupo 1 do Interior

Volta Redonda 0x1 Serrano
Mesquita 0x2 Volta Redonda
Barra Mansa 0x1 Volta Redonda
Volta Redonda 1×0 Bayer
Serrano 1×1 Volta Redonda
Volta Redonda 2×0 Mesquita
Volta Redonda 0x1 Barra Mansa
Bayer 1×1 Volta Redonda

1º lugar – 10 pts – 4V 2E 2D – 8GP 4 GS

Playoff de Desempate

Volta Redonda 4×1 Barra Mansa

Na segunda fase, o Volta Redonda se juntou à Barreira, Americano e Entrerriense. Os dois últimos entraram nesta fase do torneio por serem os finalistas do Grupo do Interior da Copa Rio de 1993. O time de Três Rios foi o seu adversário nesta fase eliminatória. No jogo de ida, no Raulino de Oliveira, o Volta Redonda venceu pelo placar de 2 a 0 e na volta, em Três Rios, o Voltaço segurou a pressão do time da casa e obteve um empate em 0 a 0, que o qualificou à final do interior e o passaporte às semifinais do certame.

Segunda Fase – Semifinal do Interior

Volta Redonda 2×0 Entrerriense
Entrerriense 0x0 Volta Redonda

Na decisão do Grupo do Interior, o Volta Redonda repetiu o desempenho da fase anterior e bateu o Americano de Campos no Raulino de Oliveira, pelo placar de 2 a 0. No jogo da volta, o time do sul do estado se comportou bem e segurou o Americano com um empate de 0 a 0, assim se sagrando campeão do Grupo do Interior e chegando com moral às semifinais da Copa Rio.

Terceira Fase – Final do Interior

Volta Redonda 2×0 Americano
Americano 0x0 Volta Redonda

Na quarta fase, Volta Redonda e Americano se juntaram à dois times da capital, America e Fluminense, sendo este último o campeão do Grupo da Capital. O Voltaço teria pela frente o time rubro de Campos Salles. No jogo de ida, em Niterói, no estádio Caio Martins, o Volta Redonda bateu o time rubro pelo placar de 3 a 1. No jogo da volta, no Raulino de Oliveira, o America surpreendeu e bateu o time da casa pelo placar de 1 a 0 no tempo normal, forçando a realização da prorrogação. Nesta, o Voltaço se recuperou diante de sua torcida e bateu o America por 2 a 1, alcançando à finalíssima do torneio.

Quarta Fase – Semifinal Estadual

America 1×3 Volta Redonda
Volta Redonda 0x1 America (Prorrogação: 2×1)

A final contra o “todo poderoso” time das Laranjeiras

Enfim, chegava o momento do Volta Redonda decidir a competição com o Fluminense. O Voltaço apostava no seu jovem time, formado em casa e que cresceu ao longo da competição. A esperança de grandes jogadas e dos gols estavam nos pés do apoiador Valtinho, xodó da torcida do Voltaço e que está entrou para história do clube como um dos seus ídolos. Do outro lado, o Volta Redonda teria pela frente uma das potências mais tradicionais do futebol nacional, o Fluminense.

Porém, o momento não justificava tanto a alcunha de potência nacional. O clube das Laranjeiras passava por uma séria crise financeira no ano de 1994, o obrigando a montar um time modesto para o Campeonato Brasileiro daquele ano, onde foi eliminado ainda na segunda fase. As derrotas nas últimas rodadas para Sport e São Paulo tiraram o time de qualquer pretensão à fase final do Campeonato Brasileiro, que acarretou na demissão do técnico Pinheiro e acabou deixando um clima pesado pairando pelo time da rua Álvaro Chaves, além da descrença do seu torcedor. Por tudo isso, a conquista da outrora ignorada e renegada Copa Rio passou a ser obrigação dentro do Fluminense. Já nas Semi Finais, o time das Laranjeiras entrara com seu time titular liderado pelo meia Luis Henrique e treinado interinamente por Altair. Isto não foi suficiente para o Fluminense não passar de dois empates com o Americano (1×1 e 0x0) e  ser obrigado a decidir a vaga à final nos pênaltis, ao bater os campistas por 4 a 3.

Com a empolgação do time da casa pela boa campanha e o clima pesado nas Laranjeiras, esperava-se um Volta Redonda fazendo frente no jogo de ida, no Raulino de Oliveira. Porém, o time da casa sucumbiu ao Fluminense e acabou sendo goleado por 4 a 1 no dia 13 de dezembro. A expressiva goleada no sul do estado deixou o Fluminense muito confiante na conquista do título. Além do mais, caso a taça viesse a ser trazida para a sala de troféus do clube das Laranjeiras, haveria o alívio de uma possível quebra do jejum de 9 anos sem títulos, que perdurava desde a conquista do Estadual de 1985 em cima do Bangu, de forma bastante polêmica, aliás.

Quinta Fase – Final

Volta Redonda 1×4 Fluminense
(Roni | Wallace, Eduardo, Djair e Welton)

A conquista da taça dentro das Laranjeiras

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LATERAL Marco Aurélio do Voltaço ostenta a taça da Copa Rio de 1994. (Foto: Arquivo)

No dia 15 de dezembro de 1994, o Volta Redonda faria o jogo final e decisivo, para tirar o título das mãos do Fluminense e dar pela primeira vez uma conquista em âmbito estadual de um time do Interior sobre um clube grande da capital. A goleada sofrida em seus domínios não abateu as esperanças do time da Cidade do Aço, pois uma vitória simples levaria o jogo à prorrogação, no entanto um empate seria favorável ao Tricolor das Laranjeiras.

Em campo, o Fluminense não repetiu o bom futebol de dois dias antes no Raulino de Oliveira e assim irritava a sua torcida, mas ainda assim construiu duas boas chances de abrir o placar na primeira etapa: com Cláudio aos 15 minutos e Wallace aos 40. Porém, o Voltaço quase abriu o placar, aos 42, com Marco Aurélio que saiu livre de frente com Wellerson e acertou a trave. No segundo tempo, o time comandado por Wilton Xavier voltou disposto a mudar o destino de jogo e logo aos 5 minutos, por intermédio do seu principal jogador, Valtinho, abriu o placar, após cruzamento de Paloma. O gol abateu com desespero o Fluminense, que foi com tudo ao ataque e teve com Ézio, aos 35 minutos, sua melhor chance de empatar o marcador, numa cabeçada que Sandro defendeu de forma espetacular. Desse modo, o Voltaço conseguiu o impossível e levou o jogo à prorrogação, prenunciando um grande feito à escrever.

No tempo extra, os dois times pouco fizeram, desgastados com a luta no tempo normal e o desgaste físico da maratona de jogos, que corroía principalmente o time da casa que jogou o Campeonato Brasileiro, até alguns dias antes. Assim, a prorrogação ficou em 0 a 0, levando a decisão do título para a “loteria” dos pênaltis. Nas cobranças, Fluminense e Volta Redonda cobraram com maestria as suas primeiras quatro cobranças cada: Missinho, Russo, Roni e Andinho para os visitantes do sul do estado e Eduardo, Leonardo, Cláudio e Galo para o Tricolor das Laranjeiras. Na última batida do Volta Redonda, Valtinho converteu sem dar chances à Wellerson. A decisão do título recaiu sob os pés do jovem meia Djair, que estremeceu diante do goleiro Sandro e acabou desperdiçando sua cobrança, danto o título de campeão da Copa Rio de 1994 ao Volta Redonda. Prolongado o jejum de títulos do Tricolor das Laranjeiras e aliado ao vexame de perder um título em casa para uma equipe de menos investimento do interior, sua torcida, que esteve presente na rua Álvaro Chaves, acabou depredando a sede social do clube das Laranjeiras, necessitando intervenção policial para acalmar os ânimos. Já pelo lado dos torcedores do Volta Redonda, era só alegria: os torcedores do Voltaço invadiram o gramado e comemoram a conquista com os atletas, que entraram para o “hall” de heróis do time do Sul Fluminense.

A Partida

FLUMINENSE 0x1 VOLTA REDONDA (Prorrogação: 0x0 – Pênaltis: 4×5)

Local: Estádio das Laranjeiras – Data: 15/12/1994;

Fluminense: Wellerson; Galo, Marcio Baby, João Luis (Antônio Carlos) e Silvio; Claudio, Djair, Eduardo e Wallace; Leonardo e Ézio (Wélton). T: Altair;
Volta Redonda: Sandro; Ari, Denimar, Fábio e Marco Aurélio; Russo, Andinho, Valtinho e Ricardo (Missinho); Paloma (Roberto Silva) e Rôni. Técnico: Wilton;

Árbitro: Claudio Vinícius Cerdeira;

Cartões Amarelos: FLU (Eduardo) – VRE (Ari, Marco Aurélio e Missinho);
Cartões Vermelhos: VRE (Ari);

Público: 1.626 pagantes;
Renda: R$ 8.130,00;

Vaga ameaçada nos obscuros bastidores do futebol

Com a conquista da Copa Rio, o Volta Redonda tinha assegurado o seu direito de disputar a Copa do Brasil no ano de 1995 como o regulamento já determinava desde 1991, certo? Errado. Ao menos para alguns dirigentes da CBF, insatisfeitos com a não classificação de Flamengo, Fluminense e Botafogo para o certame nacional no ano de 1995.

Com o título deflagrado em campo e com a falta de estatutos que obrigassem o respeito aos regulamentos das competições, começou-se uma campanha para descredibilizar a conquista do Volta Redonda e empobrecer seu legítimo direito à disputar a Copa do Brasil de 1995. O pano de fundo para tal golpe era de que todas as outras federações premiavam campeão e vice estadual para à Copa do Brasil, sendo somente a Federação do Rio que possuía critério de classificação diferente, pois criava um torneio específico para a escolha do segundo classificado. Apesar de tal atitude inescrupulosa ganhar adeptos dentro da CBF, a denúncia da imprensa sobre o fato culminou num aborto de maquiavélico plano e assim o Volta Redonda teve assegurada a sua participação na competição.

Mas isso não frustrou os planos de dirigentes da CBF de modificar os critérios de classificação à copa nacional. Logo na virada do ano de 1994 para 1995, o presidente da CBF à época, Ricardo Teixeira, anunciou um súbito aumento de quatro equipes na Copa do Brasil naquela edição, fazendo ela ir de 32 para 36 participantes. As quatro vagas extras foram distribuídas nas mão de Flamengo, São Paulo, Juventude e Democrata-GV. Apesar de toda a confusão, o Volta Redonda disputou a competição e fez apenas dois jogos na Primeira Fase, diante do Bahia. Ambos os jogos terminaram em 0 a 0 e a classificação foi decidida nos pênaltis. Porém, desta vez o Voltaço não teve a mesma sorte da final da Copa Rio e acabou derrotado por 7 a 6. Após esta participação, time do sul do estado só voltaria ao certame 11 anos depois, quando fez ótima campanha, chegando as quartas de final do certame.

Torcedor relembra a conquista 20 anos depois

Apesar de não ter a mesma lembrança da mídia tradicional em comparação aos feitos do ano de 2005, o título da Copa Rio de 1994 ainda é guardado na memória de muitos torcedores e simpatizantes do Volta Redonda. Aliás, tem até quem ache que aquela conquista fica acima do vice-campeonato estadual de 2005.

Esse é o caso de Gelver Gilliard Corrêa da Cunha, 35, torcedor, sócio e integrante da diretoria do Volta Redonda. Gelver esteve no estádio das Laranjeiras na noite de 15 de dezembro de 1994, sendo testemunha ocular do grande feito do Voltaço. Ele é taxativo sobre a importância daquela conquista: “É a nossa maior conquista. Está acima do título da Taça Guanabara de 2005, do vice-campeonato estadual daquele ano, da 5ª colocação na Copa do Brasil de 2006 ou até mesmo do tetracampeonato da Copa Rio em 2007. Foi a primeira vez que um time do interior derrotou um grande da capital em uma final”.

Apesar de duas décadas se passarem, Gelver guarda bem na memória as lembranças daquele dia que ficou na história do futebol fluminense e também fala com bom humor dos apuros que passou: “Quase morri lá [gargalhada]… A torcida do Fluminense ficou muito revoltada e começou a quebrar tudo. Enquanto isso, nós invadimos o gramado e fomos comemorar com os jogadores. Foi inesquecível, ainda mais porque eles estavam completos e queriam ir para a Copa do Brasil e os deixamos cabisbaixos…” – conta Gelver que espera ver em breve o Voltaço repetir a façanha.