Jacozinho, o astro por um dia no Maracanã

Por André Luiz Pereira Nunes

Em 1985, o Zico enfrentava problemas financeiros com o fisco italiano e revelava seu desejo de voltar a jogar no Brasil. Fora vendido em 1983 à Udinese da Itália, pela qual atuou com o zagueiro Edinho. Aproveitando a presença do jogador no país, quando atuou pelas eliminatórias da Copa do Mundo, o Flamengo tencionou trazê-lo de volta à Gávea.

Graças a uma parceria com a Petrobrás e a Rede Globo, o rubro-negro conquistou a proeza e nada seria melhor do que preparar uma grande festa para recepcionar o ídolo.

JacozinhoEnquanto isso na longínqua Alagoas, o programa “Globo Esporte”, através do folclórico repórter Marcio Canuto, veiculava matérias sobre um ponta-esquerda baixinho (70 kg, altura 1,65 m), que atuava no Centro Sportivo Alagoano (CSA), chamado Jacozinho. Márcio Canuto, então na TV-Gazeta-AL, hoje na Globo-SP, forçava, em tom de gozação, a sua convocação à Seleção Brasileira. Por causa disso, o atleta ficou conhecido no Brasil, de ponta a ponta. Tratava-se de uma figura folclórica, embora fosse também habilidoso e autor de bonitos gols que eram vistos quase todos os domingos nos “Gols do Fantástico”. Por ser muito pobre, não raro fora flagrado montado em um jumento quando se dirigia aos treinos. E ainda gostava de comer rapadura.

Quando os dirigentes rubros-negros decidiram homenagear a volta de Zico com um jogo festivo, convidaram para jogar contra o Flamengo uma verdadeira Seleção do Mundo: Maradona, Edinho, Mário Kempes, Rumennigge, Falcão, Paolo Rossi, Altobelli, Resenbrink, Fernando Morena e o técnico Cesar Menotti, foram alguns dos contemplados para o evento e todos prontamente aceitaram o convite. Até que um dia alguém ligado à Globo sugeriu o nome de Jacozinho.

“Jacozinho, quem é ele no meio de tantas cobras?”, foi a pergunta dos dirigentes do Flamengo. “Queremos Jacozinho porque ele nos traz um ibope tremendo”, foi o que alegaram os representantes da Globo. Como a emissora havia financiado a volta de Zico, todos tiveram que aceitar a ideia. E então, na noite de 12 de julho, em um Maracanã lotado, lá estava o Flamengo contra a Seleção do Mundo, com Jacozinho no banco de reservas.

Quando o jogo Flamengo x Amigos de Zico começou, foi aquela festa: flores, placas de comemoração, coroas e muitos presentes. Foi só a bola rolar e o que se viu e campo foi uma verdadeira pelada, embora o Flamengo estivesse vencendo por 2 x 1. Nem Zico, nem Maradona estavam jogando bem. A torcida, impaciente, começou a protestar: “Jacozinho, Jacozinho”, provando a audiência que a Globo possuía. Quando faltavam 20 minutos para acabar o jogo, o técnico Menotti não teve outra alternativa, lançou Jacozinho em campo.

Quando ele surgiu no gramado a torcida entrou em delírio e esqueceu-se de Zico, do Flamengo e de Maradona. Justamente na primeira bola que pegou no meio de campo, Don Diego viu Jacozinho livre na esquerda e fez um preciso lançamento. O baixinho ganhou na corrida do lateral Leandro, ficou de cara com o goleiro Cantarele, deu-lhe um drible e mandou a bola para as redes. A Globo ficou meses falando do lance. O único que não gostou do ocorrido foi Zico, que ficou bastante contrariado com o gol de Jacozinho, a ponto de declarar no fim do jogo: “Infelizmente há pessoas que querem aparecer mais do que os homenageados”.

Zico e Jacozinho
Zico, do Fla, e Jacozinho, do CSA

O ex-atacante do CSA conta que foi um momento mágico de sua vida ter participado do amistoso, principalmente pelo gol que fez. “Eu recebi o passe do Maradona, driblei o Cantarele, e marquei. Foi um dia de herói, apesar do Zico ter ficado um pouco chateado. Ele declarou depois que não era amigo dele e havia outros jogadores que poderiam ter participado daquela partida”. Jacozinho disse que até hoje não sabe como foi parar lá no Maracanã. Conta que um empresário de nome Ronaldo ligou para lhe fazer o convite. Ele teve de pagar a passagem do seu bolso e foi para o Rio. Nem sabia que ia jogar.

A fama meteórica de Jacozinho rendeu até uma homenagem feita por Fernando Collor de Mello, na época governador de Alagoas. “Nunca pensei que aquilo fosse acontecer. Até o Collor, que depois foi eleito presidente, me homenageou. O povo pedia para o Evaristo de Macedo (que era o técnico) me dar uma chance na Seleção Brasileira. Parecia até o Romário em 1993”, brinca o ex-atacante, que chegou a fazer testes no Santos Futebol Clube em 1983.

Givaldo Santos Vasconcelos, o “Jacozinho”, nasceu em 1956, na cidade de Gararu (SE). Hoje, aos 54 anos de idade reside em Simões Filho (BA). Ele tornou-se evangélico e comanda uma escolinha de futebol, mas ainda mantém o seu jeito folclórico e engraçado. No futebol viveu bons e maus momentos. Foi coroado rei em Alagoas e morou debaixo das arquibancadas no Maranhão.

Jacozinho iniciou a carreira de jogador de futebol no Vasco Esporte Clube, de Aracaju, em 1975, nas categorias de base. Na época, o clube era dirigido por José Carivaldo de Souza que, atendendo solicitação do treinador Jaime de Souza Lima, assinou seu primeiro contrato em 21 de outubro, aos 20 anos de idade, percebendo o salário de Cr$ 800.00 cruzeiros.

Pelo bom desempenho apresentado no Campeonato Estadual daquele ano, Jacozinho foi contratado no ano seguinte, pelo Club Sportivo Sergipe, para as disputas dos Campeonatos Sergipano e Brasileiro. Durante a temporada de 1977, atuou ao lado de jogadores como Raymundo Dória, Cabral, Orlando, Milano, Djalma Sales, Rubens e Peribaldo, entre outros. O primeiro jogo de Jacozinho no Maracanã foi contra o Fluminense que tinha um timaço, onde se destacava o craque Rivelino. O time sergipano perdeu por 2 a 1, Jacozinho foi um dos grandes nomes da partida.

Jacozinho atualmente, sempre com o manto do CSA
Jacozinho atualmente, sempre com o manto do CSA

Ele ganhou fama e algum dinheiro, mas esbanjou tudo com farras e mulheres. O ex-jogador garante que, no apogeu da fama, chegou a possuir um sitio, uma mansão de cinco quartos em Jequié, na Bahia, uma casa em Aracaju, um apartamento em Maceió e três carros. Perdeu tudo. Hoje, vive em casa alugada.

Agora está longe da mulherada, mas tem um projeto na cabeça: se tornar pastor e levar a palavra do evangelho para a China. Faz parte de um grupo de pagode evangélico que já gravou um CD. Seu carro chefe é a música que narra seu maior momento de glória. O refrão diz assim: “Maradona lançou, Jacozinho partiu, Figueiredo ficou, Cantarelle caiu… e a torcida gritou: é gol, é gol de Jacozinho”.

Um belo dia de 1988, Jacozinho apareceu no ABC de Natal e nas entrevistas garantia que vinha para ser campeão. Tarde de clássico-rei. Um domingo, estádio com mais de 15 mil pessoas. E entra no gramado Jacozinho, uniformizado e montado num jumento. Mas no final do jogo deu América 2 x 0. Depois disso, Jacozinho teve seu nome lembrado para fazer parte da Seleção Brasileira e foi contratado para jogar no Santa Cruz do Recife. Não deu certo e acabou sumindo do mapa.

Quando jogava no Santa, Jacó, que também esteve no Ypiranga, andava num Fusca caindo aos pedaços, devagar, quase parando, como seu dono. “Esse coitado é a minha cara”, brincava. O calhambeque tinha nome. Chamava-se Maestro. “É um conserto em cada esquina”, dizia o jogador, fazendo trocadilho com concerto, que significa peça musical.

Na sua longa carreira, passou por 22 clubes: Vasco (SE), Sergipe (SE), CSA (AL), Jequié (BA), Galícia (BA), Lêonico (BA), Corinthians de Presidente Prudente (SP), ABC (RN), Baraúnas (RN), Nacional (AM), Santa Cruz (PE), Ypiranga (PE) e outros tantos clubes pelo Brasil.  (Pesquisa de Nilo Dias).

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